(prólogo: ele não é bonito. Mas ela também não é feia. Ele é quase atlético, ela... bem, certamente não seria modelo, mas é quase de dar inveja. É mais interessante imaginá-los como: ele, mestiço, pendendo para o branco, bronzeado; ela, mestiça pendendo para negra, desbotada.)
Era seu último dia na terra.
... e, mesmo que não o fosse, ele bem que assim o teria desejado, pois que aquele maluco endiabrado, sem-vergonha, de um tal de São Pedro, parecia querer lhe adiantar uma prestação do que talvez fosse o lado de lá - sim, estava um calor de lascar as moleiras, digno de dar inveja ao próprio inferno.
- Mas no inferno não tem mar - pensou. E, pensando, voltou-se a ela e pôs-se a molestar-lhe novamente os córneos: como assim, não querer ir à praia?
- Ora, você sabe.
- Sim , sei! - categórico - Claro que sei! Só não concordo - mais categórico ainda - sei tão bem que, se ainda tivesse cabelo, já estaria careca de tanto saber. Só que não consigo concordar - intrigado.
Ela bem que se esforçou para não ceder sequer um risinho de canto de lábio. Mas era categorismo demais pra não parecer teimosia.
Mas realmente não queria. E sabe-se lá se por convencimento, curiosidade, ou só para sossegar o moço, acabou indo: ele merecia - afinal, era seu último dia na terra, embora ela ainda nem soubesse.
Chegando, deixaram as vestes menos importantes no bar do Seu Chico e danaram-se pra água - ou melhor... danou-se, rebocando consigo a reclamante e, claro, não sem reclamações. Tudo incomodava. Não importava se a areia sairia assim que entrassem n'água, ou se as (poucas) algas ficassem para trás nos primeiros metros; nem mesmo não haver águas-vivas naquele dia maravilhoso satisfazia: era tudo ruim, grudento, gosmento, melequento. Menos para ele, claro, que nem tinha notado nada disso, e felizmente já estava submerso e longe o suficiente para não precisar escutar tudo aquilo.
O sol queimava a pele, mesmo após duas demãos de protetor solar fator quarenta-e-poucos. Mas ele nem ousava lembrar-lhe que, se tivessem ido mais cedo, o sol estaria mais fraco, senão "Não era nem pr'eu ter vindo; da próxima vez, venha sozinho então". De fato, da próxima vez, ambos iriam sozinhos e ambos ignoravam, mas não, ele já tinha aprendido a limitar-se a provocar:
- Os menos bobos mergulham de tempos em tempos, assim a água esfria a pele. Olha, se você boiar, a água bate e leva o calor embora.
- ... e também o protetor. E já nem me lembro como é que bóia.
- Aaaaaafe! Protetor um dia sai. E pra boiar é assim, ó.
- É... fácil pra quem consegue.
- Hmmm... tem razão, eu não tenho esses dois pesos aí em cima, pra atrapalhar.
E sorte que no mar não há tamancos, pedaços de pau, cadeiras ou pedras grandes o suficiente para oferecer perigo quando jogadas... bah, sorte nada, ele sabia disso e se aproveitava do fato. Sorte mesmo era ela não saber nadar tão bem quanto ele, apesar de ter aprendido antes.
Passada a raiva (ou vindo o cansaço de tentar e não conseguir pegá-lo), resolveu ouví-lo. Afinal, que graça tem essa tal dessa água?
- Bem, se você chegar num lugar um pouco mais fundo, pode mergulhar e imaginar que aquilo ali em baixo é terra firme e você está voando sobre ela. Vai se sentir muito bem.
- Ah sim... se eu conseguisse enxergar alguma coisa.
- É por isso que eu trouxe óculos. Não vá dizer que, apesar do tamanho, pensou que fosse sutiã... ok, tá bom, olha assim não, não vou começar de novo, mas tira do pescoço e bota nozôio, que é o lugar deles... pronto, agora tenta.
Convenhamos, de fato areia se parece com... areia. E água turva não ajuda muito. Mas pegando carona num barco até os recifes ali próximos, a água cristalina e o chão de corais ajudou. Aí sim. Ainda bem que ela não lembrou de ouriços, siris e moréias que ali pudessem estar; em vez disso, pela primeira vez conseguiu imaginar tudo como uma floresta, e os peixes eram pássaros, e ela... bem, talvez fosse um Boeing 747. Mas mesmo que fosse um teco-teco... realmente, ainda não tinha visto aquilo sob esse ponto de vista.
========== a continuar em outra noite chuvosa ===========