domingo, 28 de novembro de 2010

O mar - parte 1

Início - 21/03/2007
(prólogo: ele não é bonito. Mas ela também não é feia. Ele é quase atlético, ela... bem, certamente não seria modelo, mas é quase de dar inveja. É mais interessante imaginá-los como: ele, mestiço, pendendo para o branco, bronzeado; ela, mestiça pendendo para negra, desbotada.)

Era seu último dia na terra.

... e, mesmo que não o fosse, ele bem que assim o teria desejado, pois que aquele maluco endiabrado, sem-vergonha, de um tal de São Pedro, parecia querer lhe adiantar uma prestação do que talvez fosse o lado de lá - sim, estava um calor de lascar as moleiras, digno de dar inveja ao próprio inferno.
- Mas no inferno não tem mar - pensou. E, pensando, voltou-se a ela e pôs-se a molestar-lhe novamente os córneos: como assim, não querer ir à praia?
- Ora, você sabe.
- Sim , sei! - categórico - Claro que sei! Só não concordo - mais categórico ainda - sei tão bem que, se ainda tivesse cabelo, já estaria careca de tanto saber. Só que não consigo concordar - intrigado.
Ela bem que se esforçou para não ceder sequer um risinho de canto de lábio. Mas era categorismo demais pra não parecer teimosia.

Mas realmente não queria. E sabe-se lá se por convencimento, curiosidade, ou só para sossegar o moço, acabou indo: ele merecia - afinal, era seu último dia na terra, embora ela ainda nem soubesse.
Chegando, deixaram as vestes menos importantes no bar do Seu Chico e danaram-se pra água - ou melhor... danou-se, rebocando consigo a reclamante e, claro, não sem reclamações. Tudo incomodava. Não importava se a areia sairia assim que entrassem n'água, ou se as (poucas) algas ficassem para trás nos primeiros metros; nem mesmo não haver águas-vivas naquele dia maravilhoso satisfazia: era tudo ruim, grudento, gosmento, melequento. Menos para ele, claro, que nem tinha notado nada disso, e felizmente já estava submerso e longe o suficiente para não precisar escutar tudo aquilo.
O sol queimava a pele, mesmo após duas demãos de protetor solar fator quarenta-e-poucos. Mas ele nem ousava lembrar-lhe que, se tivessem ido mais cedo, o sol estaria mais fraco, senão "Não era nem pr'eu ter vindo; da próxima vez, venha sozinho então". De fato, da próxima vez, ambos iriam sozinhos e ambos ignoravam, mas não, ele já tinha aprendido a limitar-se a provocar:
- Os menos bobos mergulham de tempos em tempos, assim a água esfria a pele. Olha, se você boiar, a água bate e leva o calor embora.
- ... e também o protetor. E já nem me lembro como é que bóia.
- Aaaaaafe! Protetor um dia sai. E pra boiar é assim, ó.
- É... fácil pra quem consegue.
- Hmmm... tem razão, eu não tenho esses dois pesos aí em cima, pra atrapalhar.
E sorte que no mar não há tamancos, pedaços de pau, cadeiras ou pedras grandes o suficiente para oferecer perigo quando jogadas... bah, sorte nada, ele sabia disso e se aproveitava do fato. Sorte mesmo era ela não saber nadar tão bem quanto ele, apesar de ter aprendido antes.
Passada a raiva (ou vindo o cansaço de tentar e não conseguir pegá-lo), resolveu ouví-lo. Afinal, que graça tem essa tal dessa água?
- Bem, se você chegar num lugar um pouco mais fundo, pode mergulhar e imaginar que aquilo ali em baixo é terra firme e você está voando sobre ela. Vai se sentir muito bem.
- Ah sim... se eu conseguisse enxergar alguma coisa.
- É por isso que eu trouxe óculos. Não vá dizer que, apesar do tamanho, pensou que fosse sutiã... ok, tá bom, olha assim não, não vou começar de novo, mas tira do pescoço e bota nozôio, que é o lugar deles... pronto, agora tenta.
Convenhamos, de fato areia se parece com... areia. E água turva não ajuda muito. Mas pegando carona num barco até os recifes ali próximos, a água cristalina e o chão de corais ajudou. Aí sim. Ainda bem que ela não lembrou de ouriços, siris e moréias que ali pudessem estar; em vez disso, pela primeira vez conseguiu imaginar tudo como uma floresta, e os peixes eram pássaros, e ela... bem, talvez fosse um Boeing 747. Mas mesmo que fosse um teco-teco... realmente, ainda não tinha visto aquilo sob esse ponto de vista.

========== a continuar em outra noite chuvosa ===========

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A terra prometida - Parte I

Quando Jesus Cristo foi crucificado, ali num estadozinho recém-criado e instável chamado Goiás, um punhado de fariseus resolveu fugir para buscar refúgio da ira divina. Resolveram ir pro outro lado do mundo. Só tinha um problema: o outro lado do mundo era muito longe, corriam o risco de sair de Goiás.

Lá pelas tantas chegaram a um impasse: tudo e até a morte... mas não Minas Gerais. Por outro lado, poderiam ir ao inferno e voltar... mas Bahia nãããão...

Instalaram-se então no meio do caminho, fundaram o Núcleo Rural do Cocozim. Era pra ser côcozim, mas não botaram acento e se escreveu errado e não leu... dava na mesma, eram todos analfabetos.

A região tinha duas vantagens. Primeira, por mais que fosse longe, ainda era dentro do Goiás. Inteiramente cercada por um monte de só Goiás.

 Segunda, segundo levantamentos estatísticos prévios que duraram quase três minutos, tinha a maior concentração de pé-de-pequi por quilômetro quadrado.

 Graças a Deus, eles acabaram com TUDO!

 Hoje, o antigo Distrito do Cocozim é o maior importador de pequi da América Latina. Quiseram até fazer um trem-bala - pra importar mais pequis e mais rápido - mas só de ida, pra não deixar os goianos fugirem daquela desgraça.

Mais tarde um mineiro passou por ali, conheceu a história e... sim, era mineiro, mas dizem as más linguas que tinha um assessor que era pior que goiano: era goiano fugido, e sabia a exata localização do paradeiro dos errantes, então achou-os fácil. Daí o mineiro, vendo toda aquela bonança, ficou com inveja e só de raiva deu na pecha de denunciar a terra prometida. Mandou que riscassem um quadrado em volta e chamou aquilo de Distrito Federal.

 Aliás, notaram? O mineiro mandou riscar um QUADRADO! Mas em terra de fazendeiro, quem tem geometria na verdade não tem é nada, daí deu no que todo mundo hoje sabe que deu. Dizem que os goianos ainda assim quiseram fugir, então para segurá-los lá, o tal mineiro prometeu um avião para levá-los ao tão sonhado outro lado do mundo. Um avião tão grande que caberiam eles todos - e mais um monte de pequi. Só tinham que esperar o piloto, que ia se atrasar, mas que um dia aquilo iria voar. Dizendo isso, construiu uma cidade com formato de avião em volta dos goianos, e um dia mostrou a foto aérea, coisa moderna naqueles tempos, recém-chegada de sabe-se-lá-onde. Ainda convenceu os goianos de que estavam na primeira classe - era malandro, o tal mineiro.

Assim, lá ficaram os goianos naquela terra, esperando o tal piloto, movidos pela esperança de ir pro outro lado do mundo sem pisar em Minas ou Bahia, e ainda levando um punhado de pequi (importado) pro sustento da família. Pois lá ficaram, igual galinha quando se a põe com o bico colado numa linha reta pintada no chão.

  Em alusão, chamou-se aquilo de Plano-piloto. os refugiados é que sabiam a verdadeira razão do nome, que só agora se revela e, aos outros, o mineiro inventou várias versões. Tem gente que diz até que é porque estaria situado num plano, o que é visivelmente absurdo! Se assim fosse, nunca se teria visto um plano com tantos altos e baixos - apesar de que naqueles tempos, em terra de fazendeiro, quem sabia topografia não sabia era nada, então seria até possível. Que sirva de testemunha o que chamaram de "Vila Planalto", que fica no ponto mais baixo da cidade, mas enfim...

Fato é que, por qualquer razão que seja, o tal avião nunca teve piloto. Ou, se teve, era no máximo piloto de kart, e kart infantil; não sabia conduzir um avião.

=========  tubí continuédi ==========

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Gosto de poeira e cheiro de naftalina

2004... 21 de julho, quarta feira, 1h35... na verdade, madrugada de 22 de julho, quinta feira.
 
  Você estaria verdadeiramente sentindo-se em casa agora: lá fora, 14 graus Celsius, ligeiramente úmido, com o vento típico desta época do ano... não deve ser pior do que teu outono :) mas ainda assim incomoda um bocado.
  Estranho como as coisas são... passam de dez anos que voltei do estrangeiro, mas minhas memórias manifestam-se se de maneiras estranhas: até hoje mantenho a capacidade de dizer quando a temperatura está próxima de 15 graus. Hoje, como já é de costume, acertei em cheio - "não menos que 13, não mais do que 15". O termômetro, do lado de fora da casa, me confirmou.
  Eu poderia dizer que hoje foi um bom dia: consegui almoçar, e comi muito, sem preocupação com horário - já que não teria problema eu chegar um pouco tarde ao trabalho, pois deveria estar em recesso. Pus algumas fotos para revelar - até que enfim, pois o filme já tinha um ano e meio -, tive a alegria de ver que várias fotos ficaram boas, apesar de a máquina ter estragado. Ah, e não perdi nada, nenhum objeto, ao longo do dia. :)
  Consegui, *finalmente*, assistir a dois filmes de uma vez no FIC/Brasília. Desta vez cheguei cedo e não sem dinheiro. Ao sair, fui com minhas irmãs a uma apresentação de uma banda de música popular que eu ainda não conhecia... ou melhor, não sabia que conhecia, e o que é melhor, consegui me divertir. Nesses eventos, eu normalmente não me sinto à vontade; hoje, até dancei (!?). Sim, eu que mal me movo em shows. Chegamos há pouco, ainda cantando.
  Realmente, houve de tudo para dissipar minha atenção, para melhorar meu humor... no entanto, ainda assim não me sinto plenamente alegre. Por mais que tente, não consigo me convencer; mesmo dizendo para mim "está tudo, TUDO, bem", na verdade falta-me alguma coisa, e o problema é que eu sei disso.
  Só espero que você também saiba.
  Saudades...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Aviso aos navegantes

Para quem ainda não notou, este blog é (e será) atualizado com freqüência similar à dos nossos deputados.

É que idéias não vêm à tona por mero capricho do querer, e diários deveriam ser guardados para si. É muito vazio (e egoísta) falar de si mesmo, quando há tantas coisas flutuando no mundo a esmo. Ademais, de que adianta manter-se no anonimato e falar do cotidiano? Cotidianos não são anônimos, ou idéias, nomináveis.

Pois então, isto é apenas um projeto, o de registrar a público o que me vem anonimamente. Assim vêm, assim vão. Neste primeiro momento, talvez a atividade seja maior, enquanto houver arquivo de produção a revisar e apresentar. Quem quiser, que leia, e a quem a palavra tocar, faculta-se o registro; há um cubículo carinhosamente acessível ao pé de cada nota. Mas se algum leitor apreciar os escritos aqui enfurnados, a ponto de desejar voltar para saber dos novos, por favor aceite uma sugestão: não morra de tédio. Voltar aqui periodicamente só irá mostrar-lhe a mesma tela, seguidamente, por dias, semanas, talvez meses, então o melhor é esperar notícias de novos derrames, tão logo cheguem.

Em outras palavras, assinem o Atom, ou o RSS, se existir, ou tão logo eu consiga achar onde diabos se esconde para deixá-lo aqui. Não estou muito a par dessas tecnologias, mas suponho que funcionem. E não se desanimem com os longos períodos em branco; idéias demoram para ser refinadas, ou destiladas, ou ambos, mas chegam.

Então declara-se inaugurado, oficialmente, este espaço. Bem-vindo quem quer que passe por aqui, e boa digestão!

Mundo Idiota!

Os loucos nascidos seiscentos anos após os primeiros loucos repetem, hoje, as mesmas barbaridades que estes cometeram, seiscentos anos atrás, sob as mesmas premissas com que justificavam aquilo que hoje se considera injustificável - menos para os loucos atuais.

Os idiotas de agora repelem tais atos usando de brutalidade contra os fracos, sob a égide da suposta proteção a seu império de dominação, solidamente fundamentado em crenças erguidas sobre livros de manipulação e sangue.

Combatem a violência por meio da violência, condenam a fé expressa por atos similares - mas não idênticos - aos seus. Discursam mencionando o salvador de sua existência, e comportam-se como aqueles a quem Ele próprio veio contradizer.

Os bárbaros, mercenários espirituais, explodem-se uns e aos outros, cobiçando ter (lá) o que aqueles que combatem já têm (aqui), o que é condenável (é?). Os loucos, por muito quererem, dão pouco aos bárbaros, para depois tomar-lhes tudo. Outros, já tendo galgado ao topo, limitam-se a extorquir o pouco daqueles que pouco têm, contratando, se preciso, os loucos como jagunços.

Os idiotas reagem. (Ou melhor, quase.) Hojerizam-se, do alto confortável de seus sofás, ao verem por lentes distantes atrocidades (dos bárbaros), nos moldes daquelas de seus doutrinadores, ou ícones, de outrora, segundo os quais a proteção ao divino justificava toda barbárie.

Os bárbaros, ainda imersos no mesmo contexto dos antecessores dos idiotas, milênios antes, regozijam-se, e orgulham-se, hoje, em destruir fragmentos inocentes do mundo que combatem, por dele desejarem fazer parte - neste ou em outro mundo.

Em nome do divino, matam-se mais do que as próprias misérias a quem fingem combater. Em nome do mundano, repetem hoje os erros de ontem, ecos dos de anteontem, os mesmos de seus pais e avós.

Bárbaros, loucos ou idiotas; cegos. Todos se merecem. E, por favor, mereçam-se! Mas, por dignidade, longe das vidas dos vivos.

19/04/2007, 01h25

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Esperando Que a Importância Bastasse

*trilha sonora recomendada: JAM - "Beyond Time"

  Acendeu a vela pela última vez. Sabia que não duraria muito.

  Ele ou a vela? A resposta parecia incerta. Já era muita a dor que carregava. Não sabia mais se valia a pena esperar. Olhou para a chama, embriagado. Já não sabia se queria estar ali. O silêncio da noite ensurdecia, incomodava um pouco. A vela já não bastava.

Queria mais alguém. Mas ninguém o esperava. E não esperava ninguém. Sabia que não viriam. Enfurnou-se num canto. Só queria ficar sozinho. Não sabia até quando. Até que terminasse, bastava.

  O canto se calou. Mudou-se então para outro... que também não durou muito. Nem a melodia ajudava. Também não bastava.

  Acocorou-se junto à janela. A lua cegava. Mas era bom. O canto dos pássaros ressoava, longínqüo. Tanto quanto o trema já deposto. Menos, na verdade: a apenas meia-noite. Para trás, ou para a frente, não importava. Dava na mesma.

  Vomitou palavras aos céus. Não houve resposta. Ao menos não as ouviu. Surdo, já não estava.

  Fitou-se num espelho. Nada viu. Se ao menos não o tivesse quebrado nas noites anteriores... não se teria quebrado. Ao menos não estava cego. Melhor olhar e não ver do que nada ver. Dava na mesma, não via era nada: fazia falta a vela recém-falecida.

  Daquela vez era pior: velas, já não tinha. E nem paciência para ir comprá-las. Mesmo que tivesse, não bastava: àquela hora, não encontraria mercado. E, sem vela, nem poderia procurar. Talvez minguasse dentro dos panos a quem chamava roupas, tal qual a vela que partira. Ou melhor, como a chama, no copo de parafina deixado pela vela.

  A noite parecia sem fim... desde que começara. Mas era sempre assim. No final, tudo acabava.

  Menos ele. Definhava. A bota já não o suportava. Era recíproco, não adiantava tirá-la, tanto fazia. Não sabia se duraria o suficiente para fazer diferença.

  Quantos anos se haviam passado? Só naquele último minuto, já se tinham ido tantos... em segundos, já perdera a conta. Pareceu-lhe ouvir o som das trombetas da despedida. Pareciam debochar dele. Mas estava alheio às zombarias.

  Só com uma trombeta, e só.

  Ajoelhou-se no terraço. Sua última prece. Graças pelas penas que havia suportado. Perdão pelos ensinamentos que demorou a assimilar. Recompensas àqueles que já o tinham abandonado. Luz à esperança que já se tinha ido.

  Voltou à cama. Desenrolando as cobertas, recordou os bons momentos que não havia vivido. Imaginou como teria sido sua vida se tudo tivesse sido como foi. Achando graça, chorou. O riso ardia, cáustico.

  Rindo, dormiu. Dormindo, alcançou paz. Que corria lenta. Que talvez não perdurasse eterna, mas duraria para sempre.

  Não fazia diferença. Não importava. Bastava.

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Gentilmente soprado por algum espírito errante,
originalmente em 31/07/2008, 23h-23h30