terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Aviso aos navegantes

Para quem ainda não notou, este blog é (e será) atualizado com freqüência similar à dos nossos deputados.

É que idéias não vêm à tona por mero capricho do querer, e diários deveriam ser guardados para si. É muito vazio (e egoísta) falar de si mesmo, quando há tantas coisas flutuando no mundo a esmo. Ademais, de que adianta manter-se no anonimato e falar do cotidiano? Cotidianos não são anônimos, ou idéias, nomináveis.

Pois então, isto é apenas um projeto, o de registrar a público o que me vem anonimamente. Assim vêm, assim vão. Neste primeiro momento, talvez a atividade seja maior, enquanto houver arquivo de produção a revisar e apresentar. Quem quiser, que leia, e a quem a palavra tocar, faculta-se o registro; há um cubículo carinhosamente acessível ao pé de cada nota. Mas se algum leitor apreciar os escritos aqui enfurnados, a ponto de desejar voltar para saber dos novos, por favor aceite uma sugestão: não morra de tédio. Voltar aqui periodicamente só irá mostrar-lhe a mesma tela, seguidamente, por dias, semanas, talvez meses, então o melhor é esperar notícias de novos derrames, tão logo cheguem.

Em outras palavras, assinem o Atom, ou o RSS, se existir, ou tão logo eu consiga achar onde diabos se esconde para deixá-lo aqui. Não estou muito a par dessas tecnologias, mas suponho que funcionem. E não se desanimem com os longos períodos em branco; idéias demoram para ser refinadas, ou destiladas, ou ambos, mas chegam.

Então declara-se inaugurado, oficialmente, este espaço. Bem-vindo quem quer que passe por aqui, e boa digestão!

Mundo Idiota!

Os loucos nascidos seiscentos anos após os primeiros loucos repetem, hoje, as mesmas barbaridades que estes cometeram, seiscentos anos atrás, sob as mesmas premissas com que justificavam aquilo que hoje se considera injustificável - menos para os loucos atuais.

Os idiotas de agora repelem tais atos usando de brutalidade contra os fracos, sob a égide da suposta proteção a seu império de dominação, solidamente fundamentado em crenças erguidas sobre livros de manipulação e sangue.

Combatem a violência por meio da violência, condenam a fé expressa por atos similares - mas não idênticos - aos seus. Discursam mencionando o salvador de sua existência, e comportam-se como aqueles a quem Ele próprio veio contradizer.

Os bárbaros, mercenários espirituais, explodem-se uns e aos outros, cobiçando ter (lá) o que aqueles que combatem já têm (aqui), o que é condenável (é?). Os loucos, por muito quererem, dão pouco aos bárbaros, para depois tomar-lhes tudo. Outros, já tendo galgado ao topo, limitam-se a extorquir o pouco daqueles que pouco têm, contratando, se preciso, os loucos como jagunços.

Os idiotas reagem. (Ou melhor, quase.) Hojerizam-se, do alto confortável de seus sofás, ao verem por lentes distantes atrocidades (dos bárbaros), nos moldes daquelas de seus doutrinadores, ou ícones, de outrora, segundo os quais a proteção ao divino justificava toda barbárie.

Os bárbaros, ainda imersos no mesmo contexto dos antecessores dos idiotas, milênios antes, regozijam-se, e orgulham-se, hoje, em destruir fragmentos inocentes do mundo que combatem, por dele desejarem fazer parte - neste ou em outro mundo.

Em nome do divino, matam-se mais do que as próprias misérias a quem fingem combater. Em nome do mundano, repetem hoje os erros de ontem, ecos dos de anteontem, os mesmos de seus pais e avós.

Bárbaros, loucos ou idiotas; cegos. Todos se merecem. E, por favor, mereçam-se! Mas, por dignidade, longe das vidas dos vivos.

19/04/2007, 01h25

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Esperando Que a Importância Bastasse

*trilha sonora recomendada: JAM - "Beyond Time"

  Acendeu a vela pela última vez. Sabia que não duraria muito.

  Ele ou a vela? A resposta parecia incerta. Já era muita a dor que carregava. Não sabia mais se valia a pena esperar. Olhou para a chama, embriagado. Já não sabia se queria estar ali. O silêncio da noite ensurdecia, incomodava um pouco. A vela já não bastava.

Queria mais alguém. Mas ninguém o esperava. E não esperava ninguém. Sabia que não viriam. Enfurnou-se num canto. Só queria ficar sozinho. Não sabia até quando. Até que terminasse, bastava.

  O canto se calou. Mudou-se então para outro... que também não durou muito. Nem a melodia ajudava. Também não bastava.

  Acocorou-se junto à janela. A lua cegava. Mas era bom. O canto dos pássaros ressoava, longínqüo. Tanto quanto o trema já deposto. Menos, na verdade: a apenas meia-noite. Para trás, ou para a frente, não importava. Dava na mesma.

  Vomitou palavras aos céus. Não houve resposta. Ao menos não as ouviu. Surdo, já não estava.

  Fitou-se num espelho. Nada viu. Se ao menos não o tivesse quebrado nas noites anteriores... não se teria quebrado. Ao menos não estava cego. Melhor olhar e não ver do que nada ver. Dava na mesma, não via era nada: fazia falta a vela recém-falecida.

  Daquela vez era pior: velas, já não tinha. E nem paciência para ir comprá-las. Mesmo que tivesse, não bastava: àquela hora, não encontraria mercado. E, sem vela, nem poderia procurar. Talvez minguasse dentro dos panos a quem chamava roupas, tal qual a vela que partira. Ou melhor, como a chama, no copo de parafina deixado pela vela.

  A noite parecia sem fim... desde que começara. Mas era sempre assim. No final, tudo acabava.

  Menos ele. Definhava. A bota já não o suportava. Era recíproco, não adiantava tirá-la, tanto fazia. Não sabia se duraria o suficiente para fazer diferença.

  Quantos anos se haviam passado? Só naquele último minuto, já se tinham ido tantos... em segundos, já perdera a conta. Pareceu-lhe ouvir o som das trombetas da despedida. Pareciam debochar dele. Mas estava alheio às zombarias.

  Só com uma trombeta, e só.

  Ajoelhou-se no terraço. Sua última prece. Graças pelas penas que havia suportado. Perdão pelos ensinamentos que demorou a assimilar. Recompensas àqueles que já o tinham abandonado. Luz à esperança que já se tinha ido.

  Voltou à cama. Desenrolando as cobertas, recordou os bons momentos que não havia vivido. Imaginou como teria sido sua vida se tudo tivesse sido como foi. Achando graça, chorou. O riso ardia, cáustico.

  Rindo, dormiu. Dormindo, alcançou paz. Que corria lenta. Que talvez não perdurasse eterna, mas duraria para sempre.

  Não fazia diferença. Não importava. Bastava.

________________________________________
Gentilmente soprado por algum espírito errante,
originalmente em 31/07/2008, 23h-23h30