quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Esperando Que a Importância Bastasse

*trilha sonora recomendada: JAM - "Beyond Time"

  Acendeu a vela pela última vez. Sabia que não duraria muito.

  Ele ou a vela? A resposta parecia incerta. Já era muita a dor que carregava. Não sabia mais se valia a pena esperar. Olhou para a chama, embriagado. Já não sabia se queria estar ali. O silêncio da noite ensurdecia, incomodava um pouco. A vela já não bastava.

Queria mais alguém. Mas ninguém o esperava. E não esperava ninguém. Sabia que não viriam. Enfurnou-se num canto. Só queria ficar sozinho. Não sabia até quando. Até que terminasse, bastava.

  O canto se calou. Mudou-se então para outro... que também não durou muito. Nem a melodia ajudava. Também não bastava.

  Acocorou-se junto à janela. A lua cegava. Mas era bom. O canto dos pássaros ressoava, longínqüo. Tanto quanto o trema já deposto. Menos, na verdade: a apenas meia-noite. Para trás, ou para a frente, não importava. Dava na mesma.

  Vomitou palavras aos céus. Não houve resposta. Ao menos não as ouviu. Surdo, já não estava.

  Fitou-se num espelho. Nada viu. Se ao menos não o tivesse quebrado nas noites anteriores... não se teria quebrado. Ao menos não estava cego. Melhor olhar e não ver do que nada ver. Dava na mesma, não via era nada: fazia falta a vela recém-falecida.

  Daquela vez era pior: velas, já não tinha. E nem paciência para ir comprá-las. Mesmo que tivesse, não bastava: àquela hora, não encontraria mercado. E, sem vela, nem poderia procurar. Talvez minguasse dentro dos panos a quem chamava roupas, tal qual a vela que partira. Ou melhor, como a chama, no copo de parafina deixado pela vela.

  A noite parecia sem fim... desde que começara. Mas era sempre assim. No final, tudo acabava.

  Menos ele. Definhava. A bota já não o suportava. Era recíproco, não adiantava tirá-la, tanto fazia. Não sabia se duraria o suficiente para fazer diferença.

  Quantos anos se haviam passado? Só naquele último minuto, já se tinham ido tantos... em segundos, já perdera a conta. Pareceu-lhe ouvir o som das trombetas da despedida. Pareciam debochar dele. Mas estava alheio às zombarias.

  Só com uma trombeta, e só.

  Ajoelhou-se no terraço. Sua última prece. Graças pelas penas que havia suportado. Perdão pelos ensinamentos que demorou a assimilar. Recompensas àqueles que já o tinham abandonado. Luz à esperança que já se tinha ido.

  Voltou à cama. Desenrolando as cobertas, recordou os bons momentos que não havia vivido. Imaginou como teria sido sua vida se tudo tivesse sido como foi. Achando graça, chorou. O riso ardia, cáustico.

  Rindo, dormiu. Dormindo, alcançou paz. Que corria lenta. Que talvez não perdurasse eterna, mas duraria para sempre.

  Não fazia diferença. Não importava. Bastava.

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Gentilmente soprado por algum espírito errante,
originalmente em 31/07/2008, 23h-23h30

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